Perdão, para ser perdoado

Felipe Miranda O. Morais Livros Deixe Seu Comentário

Perdão, para ser perdoado…

 

Lúcio era um crente exemplar. Pelo menos era assim que todos o enxergavam…

Todos os dias, frequentava os cultos com anseio pela presença de Deus!

Lúcio buscava ao Senhor pelas madrugadas, jejuava todos os dias pela manhã e orava constantemente por sua família.

Quem o observava, tinha-o como um exemplo a ser seguido.

Além do mais, Lúcio tinha um ministério que crescia rapidamente. Ele era realmente muito útil na congregação onde frequentava. Lia a Bíblia desesperadamente, como alguém que procura por algo essencial para sobreviver.

Lúcio gostava de ajudar os outros, isso fazia com que ele pudesse sentir-se bem e tirava-lhe parte da carga que havia em sua mente. Ele realizava grandes obras, mas não conseguia amar verdadeiramente. Esforçava-se sempre para ser uma pessoa útil e agradável, mas sentia-se perturbado com algo dentro de si. Era como se tudo que ele fizesse não pudesse libertá-lo do peso que carregava em seu coração.

 

“Se você não estiver pronto para perdoar…

… então você não está pronto para amar.”

 

Já se fazia 35 anos desde sua conversão e Lúcio ainda sentia necessidade de receber o perdão de Deus.

“O que me falta?”, pensava Lúcio consigo mesmo, tentando compreender o porquê de não se sentir amado pelo Senhor… “Tenho orado durante todos esses anos e não tenho recebido sequer uma resposta, por mínima que seja” – murmurava consigo mesmo. “Talvez seja porque tenho orado de forma errada” – pensava isso buscando uma justificativa para o fracasso de suas orações, mas no fundo Lúcio sabia qual era o motivo. Deus nunca havia deixado Lúcio enganado… Na realidade, ele sabia exatamente o que fazer, mas resistia.

Sofreu muito até o dia em que cansou-se de tentar enganar a si mesmo com justificativas falsas a respeito de sua infelicidade.

“Se estiver orando da forma errada,” – pensou ele – então irei usar a oração modelo – O Pai Nosso – para analisar em quê tenho sido falho em minhas palavras. Na realidade, Lúcio não errava nas palavras que dizia, mas nas suas atitudes para com elas.

Ao ler e examinar a oração do Pai Nosso, Lúcio não pôde conter o poder das palavras, que consumia seu egoísmo:

 

“Vocês orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus!

Santificado seja o teu nome.

Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade,

assim na terra como no céu.

Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.

Perdoa as nossas dívidas,

assim como perdoamos aos nossos devedores.

E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém.’ ” – Mateus 6.9-13

 

“Tenho santificado o Nome do Senhor!” – argumentou Lúcio. “Por toda minha vida cristã jamais fiz uso indevido do Seu Nome; nem mesmo servi de escândalo algum, que viesse ferir a santidade do Nome do Senhor!” – respirava aliviado por ter passado no teste da primeira parte da oração.

“Aprendi desde cedo a buscar primeiro o Reino de Deus e a aceitar a vontade do Senhor em minha vida, mesmo que seja diferente da minha vontade, pois sei que Deus sempre tem o melhor para mim!” – orgulhava-se de ser tão maduro. A segunda parte da oração ele também havia tirado de letra.

“Não me preocupo com nada que irá acontecer, aprendi a estar na dependência de Deus, pois quem está pronto a aceitar a Vontade de Deus em sua vida, deve entender que Ele é zeloso e cuida dos seus.” – Até aqui Lúcio estava indo muito bem.

“Tenho perdoado algumas pessoas” – por um instante houve um silêncio em sua consciência – aquelas palavras bateram como um martelo em seu coração.

 

[… assim como perdoamos aos nossos devedores…]

 

Naquele instante, Lúcio deparou-se com uma verdade surpreendente e assustadora ao mesmo tempo: “realmente, Deus não perdoou os meus pecados!” – pensou, pois ele era um homem que guardava muitas mágoas no coração.

Eram feridas ainda feitas durante sua infância, coisas pequenas, mas que ele nunca conseguira esquecer. Havia um rancor tão grande em seu coração, que conseguia sentir ódio – um ódio tão elevado que apenas a lembrança já lhe fazia mal.

Lúcio, que estava acostumado a ser um crente mimado por pregadores motivacionais, lembrou-se de quantos congressos participou, ocasiões em que, com orgulho, dizia para si mesmo: “Você é mais que vencedor!” Entretanto, agora sentia-se um derrotado, pois não havia conquistado aquilo que era o mais importante: o Perdão de Deus.

Com finalidades unicamente materiais, pronunciara: “Posso todas as coisas Naquele que me fortalece!” Agora pensava: “será que posso perdoar?”

Lúcio cansou-se de ser mais uma voz em meio à multidão, defendendo teorias que nem ele mesmo sabia do que se tratava. Não queria ser mais uma marionete ou um fantoche, apenas repetindo palavras que lhe foram impostas, como se fosse conduzido por alguém incapaz de preencher o vazio de sua alma. Ele precisava ter uma experiência individual com Deus, era uma questão de vida ou morte. [1]

Continuou sua leitura com profundo sentimento de derrota, por todos esses anos em que deixou-se enganar, fingindo ser algo que não era de fato. Porém, agora ele havia deixado que o Senhor falasse ao seu coração, e não apenas aos seus ouvidos.[2] Ao terminar a leitura da oração, sentiu-se angustiado. Entendeu que de fato, se não havia recebido o perdão de Deus, não tinha mais comunhão com Ele.

“E agora? Como faço para restaurar esse elo perdido?” – pensava. “Como me achegar a Deus?” [3]

Resolveu então continuar a leitura, como se aceitasse um desafio para mudar radicalmente sua postura e assim começar a desfrutar a vida como nunca antes conseguiu. Enfim, ele se libertaria da prisão em que se encontrava. Mesmo não sendo dócil, a Palavra foi eficaz. Logo depois da palavra final da oração – o Amém – deparou-se com a explicação daquele questionamento que tanto lhe incomodava:

 

“Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará.

Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas.”

 Mateus 6.14-15

 

Apesar da dureza das palavras, Lúcio estava feliz. Havia encontrado a resposta para livrá-lo do peso que carregava durante todos esses anos: bastava que ele perdoasse a todas as pessoas que lhe feriram durante toda sua vida, que assim obteria o tão sonhado perdão de Deus!

Não seria uma tarefa fácil… Na verdade era quase impossível, pois havia muitas coisas para ser esquecidas!

Entretanto, não se preocupava mais com as impossibilidades, agora ele estava no caminho da felicidade, havia aberto o coração para perdoar.

 

“… E quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial lhes perdoe os seus pecados“. Mas se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está no céu não perdoará os seus pecados. Marcos 11.25-26

 

[1] Ref.: Provérbios 3.32

[2] Ref.: Hebreus 3.7-8,15

[3] Ref.: Tiago 4.8